Foto: Rosilene Miliotti
Foto: Rosilene Miliotti

*Por Rosilene Miliotti

A partir do projeto de aproximação com os usuários de crack moradores da Cena de Consumo da Rua Flávia Farnese, no Parque Maré, a equipe do Maré de Notícias decidiu dar visibilidade a essas histórias, mas nós não vamos contar a trajetória de ninguém, quem vai contar é o próprio morador.

“Hoje eu acordei com preguiça (28 de julho de 2015). Acordei cedo, depois me deu sono, dormi de novo e estou aqui com uma preguiça danada. Hoje a cracolândia está em paz, mas nem sempre é assim.

Eu me chamo Reginaldo Gomes de Arruda, sou um usuário de crack e quero ser chamado pelo nome, não de cracudo. Mas aqui na cracolândia só me chamam pelo apelido, Magrão, mas não gosto. Tenho 43 anos e faço aniversário no dia 22 de setembro, perto do dia de São Cosme e São Damião. Lembro que eu pegava muito doce quando era criança. Já fui criança, joguei bola de gude, soltei pipa, brinquei de amarelinha e pulei elástico. Sempre fui brincalhão. Jogava futebol e diziam que eu era bom. Iam até me buscar em casa.

Trabalhei por 14 anos no Colégio PH. Comecei como auxiliar de serviços gerais e depois um rapaz, da escola mesmo, me ensinou a consertar ar condicionado. Comecei a fazer pequenos reparos na escola até que o responsável pela manutenção me chamou para fazer um teste. Virei auxiliar de manutenção, depois fui promovido a técnico em refrigeração.

Eu morava no Arará, tinha casa, família, trabalho e depois da morte da minha mãe, que era diabética e hipertensa, minha vida mudou do vinho pra água. Ela era tudo, eu conversava com mamãe todos os dias quando eu chegava do trabalho. Cuidava dela, dava os remédios, levava ao médico. Eu não acreditava, achava que ela ia voltar.

Comecei a usar o crack no Jacaré, nem lembro quando. Estou aqui na Maré há cinco anos, mas passei por Manguinhos, Mandela e Centro. Aqui eu já briguei, casei, separei, apanhei, corri da polícia e fugi da morte por duas vezes. Já tive momentos de felicidade, mas é pouco diante dos momentos ruins. Eu gosto quando chegam pessoas diferentes aqui querendo conversar.

Vergonha de voltar pra casa

Nem lembro a última vez que fui em casa, sinto saudade do meu filho. Minha família sabe que estou aqui, já vieram me buscar, mas a vergonha de ser o que sou não me permite voltar. Tenho vergonha e decepção de mim mesmo, de tentar e não conseguir. Pra eu voltar pra casa tenho que voltar a ser uma pessoa ‘normal’, sem o vício do crack. Preciso só de uma oportunidade, tirar meus documentos de novo e um trabalho. Só vou sair daqui quando eu tiver condições de me sustentar.

Não fumo mais como antes. Hoje, desde que eu acordei (às 8h) até agora (às 16h) só fumei uma pedra. Eu fumava toda hora, nem que fosse uma pedra de R$ 5. Por dia eu chegava a fumar quatro pedras de R$ 20, cinco de R$ 10, as de R$ 5 eu nem lembro quantas. Eu gastava, em média, mais de R$ 150 por dia.

Comecei a diminuir já tem uns cinco meses por causa da pneumonia. Eu não sabia que estava doente e mesmo assim continuei a fumar até que fui ao médico e ele disse o que eu tinha. Minha família da cracolândia me ajudou. Eles me negavam a droga e eu sabia que era pro meu bem, mas a vontade era grande. Estou tomando os remédios e te digo uma coisa, tenho medo de morrer, já até sonhei com isso. Acho que se eu voltar a fumar como antes, eu morro. Sou um homem de 1,75 e antes do crack eu pesava 64kg, hoje estou com 56Kg, mas já pesei 49Kg.

Vou ser sincero, com a vontade que eu tinha pra fumar o crack, eu não teria paciência pra conversar com você não.
Ninguém tem. Não comia, só era a droga. Eu arrumo dinheiro vendendo papelão, tomo conta de carro, peço ajuda a um e a outro, não gosto de fazer parada errada. Nunca roubei e não vou roubar por causa da droga.

Sobre os zumbis como as pessoas nos chamam, elas nos julgam e pegam pesado, mas não estão erradas. Os caras chegam na casa dos vizinhos pra pedir um copo de água com a mão preta, suja. Não tomam banho e só querem saber de fumar o crack, é um zumbi porque não tem vida.

Quando a gente precisa de atendimento médico de emergência, por exemplo, eles não nos atendem ou demoram muito e é por isso que eu não gosto de andar sujo. Chegou sujo em algum lugar logo te chamam de mendigo ou cracudo. Aqui na Flavia Farnese a maioria toma banho, limpa a casa e lava as roupas. Mas já conheci pessoas que ficam dois meses sem se limpar. Eu não gosto de ser tratado assim e nunca fui. Eu, mesmo sendo usuário de droga, tomo banho, tenho educação, sempre converso com os vizinhos e me dou bem com eles. Nunca um vizinho me chamou de cracudo mesmo sabendo que uso o crack. A convivência com os vizinhos já foi pior, mas hoje eles nos ajudam, vêm aqui e conversam, pedem pra gente fazer algum serviço.

Peço que nos olhem com respeito

É bom que as pessoas saibam que aqui na cracolândia, apesar dos problemas, vivemos como família para conseguirmos sobreviver. A gente briga e se entende e eu acabo permanecendo aqui também por causa disso. Aqui nós temos que seguir ordens, mas nem sempre as ordens são cumpridas, como em qualquer condomínio, por exemplo. Aí tem confusão. Dona Vera, uma das líderes daqui, eu considero como minha mãe e ela consegue fazer essa união.

Peço que nos olhem de outra forma, com respeito. As pessoas aqui têm família e é bom que saibam que em tudo que é lugar existe o viciado, seja no Brasil ou no Japão. E por existir viciado em tudo que é mundo, a cracolândia é algo normal porque é um lugar onde é permitido o uso da droga. Você quer usar a droga sem incomodar a família ou os vizinhos? É só ir na cracolândia.

A cracolândia deveria ser citada no jornal não como um lugar de droga, mas uma opção onde os usuários podem usar a droga sem ser incomodados e sem prejudicar ninguém. Se você não usar a droga na cracolândia você vai usar onde? Em casa, na rua, na porta dos outros? Dentro de casa é o pior lugar pra usar, imagina seus filhos vendo você se drogar? Eu não quero que meu filho faça o que eu faço. Por isso que saí de casa.

Eu não vou parar de usar o crack de um dia pro outro. As pessoas que vão para instituições falam que podem sair toda hora. Tem uma boca de fumo a menos de 40 metros. Como pode parar de fumar desse jeito?

Essa é minha história e o que penso da vida na cracolândia. Não quero sair daqui sem ter para onde ir. Pelo menos aqui eu sei que tenho um chão pra dormir, aqui ninguém vai me matar de bobeira. Também não quero voltar pra minha família na situação em que me encontro. Eles não merecem.”

Clique e saiba mais sobre o projeto de aproximação da Redes da Maré com o moradores da CCFF.

* Matéria publicada originalmente no Jornal Maré de Notícias, edição nº66