Por Jorge Barbosa (jorge@observatoriodefavelas.org.br)*

Rio de Janeiro – A cada primeiro de maio, pelo menos desde 1890, é celebrado o Dia dos Trabalhadores. Criado tendo como referência às greves dos operários de Chicago em maio de 1886, em muitos países o 1º de maio entrou em calendários oficiais e festivos como Dia do Trabalho. Pela própria condição vivida pela classe trabalhadora naquele período em particular, a festa não poderia estar separada da consciência política e da necessidade de mobilização social, foi assim que ela ganhou cada vez mais a dimensão de afirmar sujeitos de direitos: os trabalhadores e as trabalhadoras. Portanto, o 1° de Maio é momento político de afirmação de identidades dos trabalhadores entre si, de fazer emergir suas reivindicações de vida e de sociedade, assim como para festejar suas árduas conquistas de direitos. Pode-se dizer que o Dia dos Trabalhadores deve ser considerado um marco de afirmação dos trabalhadores e das trabalhadoras como protagonistas de conquistas democráticas para a sociedade como um todo.

No Brasil, o Primeiro de Maio entra no calendário como feriado oficial em 1924 sendo criação do governo federal. Entretanto, desde 1895 já se comemorava o dia dos trabalhadores em sindicatos, praças e estações ferroviárias. A data já fazia parte das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras desde sempre.

Hoje, quando olhamos para século XXI, ainda percebemos o quanto precisamos conquistar e, para nossa perplexidade, o quanto ainda precisamos defender direitos básicos já conquistados. A luta por direitos dos trabalhadores e trabalhadoras em nosso país ainda exige imensas conquistas para superar as desigualdades raciais e de gênero que se reproduzem sem cessar no “mundo do trabalho” dominado pelos interesses do mercado, pelas hierarquias estabelecidas pelo racismo institucional e pelos poderes androcêntricos. Os triunfos dos trabalhadores e das trabalhadoras serão, como dissemos, uma conquista de direitos democráticos para toda a sociedade.

Paradoxalmente, a luta dos trabalhadores e trabalhadoras para ampliar seus direitos como classe, pessoas e humanidades se faz acompanhar de mobilizações para enfrentar uma agenda regressiva imposta pelo Estado governado por ultraconservadores a serviço de classes e grupos hegemônicos. Iniciada pelo governo do golpe que destitui a presidenta eleita, com a reforma trabalhista que suprimiu garantias fundamentais contra a voracidade do mercado e a precarização dos vínculos de trabalho (não é demais lembrar que foi aprovada a flexibilização de jornada, férias e salários como “livre acordo” entre patrões e empregados). E tudo isto acontecendo em meio ao desemprego que já alcançou a 12,7 milhões de pessoas, segundo o IBGE.

Agora está em tramitação na Câmara Federal dos Deputados a proposta de Reforma da Previdência do atual governo federal que, em linhas gerais, simplesmente aumenta tempo de trabalho e contribuição para aposentadoria da grande maioria dos já ingressos e aos futuros ingressos nas atividades formalizadas de trabalho, assim como viola todo o sistema de garantias e proteção aos trabalhadores e trabalhadoras que mais a necessitam. Analistas de distintas matrizes ideológicas, diversas organizações sindicais e organizações da sociedade civil argumentam que a reforma da previdência proposta será mais uma liquidação de direitos já adquiridos da sociedade brasileira.

Estamos vivendo um período de imensos desafios. Muitos direitos ainda para conquistar e muitos direitos para defender por parte da classe trabalhadora brasileira, e diríamos, de tantos outros países sob assalto das forças conservadoras e protofascistas. Essa dura realidade faz e fará deste 1º maio de 2019 um dia para afirmar nossas identidades como sujeitos de direitos e protagonistas das lutas pela radicalização da democracia. Estaremos de volta às praças e às avenidas deste mundo global da indiferença e do conservadorismo. Juntos, com afeto e luta, com a força e a beleza de nossas utopias de humanidade plena.

*Jorge Barbosa é geógrafo, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e diretor do Observatório de Favelas.