Por Gabriela Anastacia (gabriela@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – Pare, pense e responda internamente. Conte quantos livros de mulheres negras você já perdeu horas a fio lendo e relendo. Possivelmente, você já ouviu nomes clássicos e contemporâneos como Firmina dos Reis, Carolina de Jesus, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro entre outras intelectuais negras que desafiam o mercado editorial nacional predominantemente branco e conservador.

Segundo um estudo apresentado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e pela Nielsen, o varejo do mercado editorial brasileiro teve um primeiro trimestre positivo em 2018: o 3.º Painel das Vendas de Livros no Brasil mostra um crescimento de 8,76% em volume e 14,28% em valor no comparativo com 2017.

O que os dados não mostram é que pouco desses números representam a participação de mulheres negras. Um levantamento de 2012 feito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) mostrou que dos 258 romances publicados por três grandes editoras entre 1990 e 2004, 94% por homens brancos e 72% eram do sexo masculino.

“Um grande passo é respeitar nossa cultura e respeitar nosso fazer artístico. Respeitar em todas as etapas do processo. Na literatura é respeitar nossas escritas, receber um original e não fazer um prejulgamento racista da escrita quando o autor/autora é negra(o). Não dar justificativas racista, como já ouvi: ‘’não vamos publicar. Não precisamos porque já temos quatro negros na casa”, lamenta a autora carioca Janine Rodrigues, fundadora da Piraporiando, editora de livros infantojuvenis.

A jornalista mineira Jéssica Balbino idealizou o Projeto Margens a partir de sua defesa de tese durante o mestrado. Criou o mapa das mulheres na literatura para acompanhar quem são as escritoras periféricas que estão se lançando no universo das letras, onde 60% se autodeclaram pretas ou pardas. Buscava entender quem eram as mulheres da literatura marginal/periférica e o que elas estavam produzindo, criando, onde frequentavam, entre outro fatores.

“Fiz um formulário de mapeamento e convidei algumas pessoas a responderem e deixei público. Houve uma expansão maior do que eu imaginava e ao todo, 425 mulheres se automapearam. Criei então o mapa, como forma de organizar estes dados e também de servir como consulta. Caso alguém queira convidar alguma mulher que escreva no Pará, no Tocantins, no Mato Grosso, no Sul, etc, é possível. Isso também acaba com as desculpas dos curadores, de que não existem mulheres escrevendo/publicando etc”, explica.

Desafios da educação no país

Em vigor desde 2003, a lei de obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira e africana nas escolas (Lei 10.639) ainda encontra muita resistência de professores e gestores. Mas não é vista como a principal dificuldade de inserir a literatura negra desde a primeira infância para Janine Rodrigues, autora de obras como ‘Nuang – Caminhos da liberdade’ que conta a história da liberdade a partir dos olhos de uma criança, ressaltando elementos da cultura banto.

“As vezes vejo resistência em se adquirir livros com personagens negros que vivam situações do cotidiano brasileiro, por exemplo. Como se o personagem só pudesse estar presente em tribos, princesas negras, reis negros. Que é maravilhoso. Sem dúvida. Mas e a menina e o menino contemporâneos? O personagem negro que é o legal da turma, que é o galã, que é o que tira nota boa, que é o namoradinho, que é o desbravador de mistérios, que é o personagem principal”, enfatiza Janine.

‘A literatura está nas mãos de homens brancos’

Em recente entrevista ao Jornal Correio Braziliense, a escritora Conceição Evaristo falou sobre a dificuldade de mulheres negras conseguirem ser vistas como produtoras de saber e conhecimento: “A literatura está nas mãos de homens brancos”.

A escritora mineira, autora de obras como “Ponciá Vicêncio” (2003) e “Olhos d’água” (2014), é um dos fortes nomes que concorrem à cadeira de número 7 da Academia Brasileira de Letras. Organizações da sociedade civil, como o Blogueiras Negras, Observatório de Favelas, Redes da Maré, Instituto Maria e João Aleixo, estão fazendo campanhas nas redes sociais em apoio à candidatura já oficializada de Evaristo. Ações como tuitaços já estão mobilizando as redes e as próximas datas são nos dias 26 de julho e 16 e 30 de agosto com a hastag #ConceiçãoEvaristoNaABL. A eleição oficial acontece no dia 30 de agosto.