Por Priscila Rodrigues (priscila@observatoriodefavelas.org.br)

Equipe do Observatório de Favelas - Crédito: Francisco Valdean
Equipe do Observatório de Favelas reunida na Arena Dicró – Crédito: Francisco Valdean

“Se não nos falarmos internamente não conseguiremos nos comunicar para fora” Seguindo essa ideia, a diretoria do Observatório de Favelas (Eduardo Alves, Elionalva Sousa, Jailson de Souza, Jorge Barbosa e Raquel Willadino) realiza anualmente um Seminário que reúne toda equipe que atua nos projetos e na administração da Organização. Esse ano, o encontro foi na Arena Carioca Dicró, na Penha. Um dia inteiro para falar da conjuntura, o passado, o presente e, acima de tudo, os planos para o futuro.

Por coincidência, o Seminário aconteceu no dia 18 de abril, uma segunda-feira ensolarada e também o dia seguinte à votação, na Câmara dos Deputados, do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Por 367 votos favoráveis e 137 contrários o processo seguiu para a votação no Senado – que, agora sabemos, culminou na presidência interina de Michel Temer. Uma derrota para os que ali estavam. Sentados em roda, conversaram, lamentaram, se abraçaram e se fortaleceram para a luta. A luta pela democracia. “Esse processo coloca a gente em um campo de disputa muito mais complexo”, afirmou Eduardo Alves seguido por Jailson de Souza “Temos obrigação de nos posicionarmos”.

Em 14 de abril o Observatório de Favelas soltou uma nota (http://goo.gl/kzihKi) em que declara seu posicionamento contrário ao impeachment. “Não dá para gente ficar na resistência. Precisamos ser atores políticos. É o momento decisivo para construir um outro projeto possível. É importante que a sociedade civil retome a agenda. A inflexão política passa pela favela, passa pela periferia, passa pela gente”, sintetizou Jorge Barbosa, durante o Seminário, o papel da Organização na atual conjuntura.

Foto: Bruno Thomassin
Crédito: Bruno Thomassin

Quinze anos de atuação

Não é possível falar de futuro sem pensar no passado. É ele que sustenta os próximos passos. “Nosso repertório nos financia”, como afirma Jorge ao falar da atuação da Organização. No entanto, na fala da maioria dos presentes a “necessidade de reinvenção” era uma constante. “Não podemos ser a mesma organização se a conjuntura mudou. Nós não resistimos. Nós nos reinventamos. Precisa haver um sentido para continuarmos existindo”, pontua Jailson que, ao lado de Jorge, fundou há 15 anos o Observatório de Favelas.

Ainda na lógica existencial, a diretoria do Observatório de Favelas informou que este funcionará como uma matriz ligada a três estruturas fundamentais (Arte e Território, Comunicação e o Instituo João Aleixo) que serão mais autônomas. A meta é potencializar, em escala mundial, o conceito de periferia como potência. “O Observatório se destaca por ser uma organização da sociedade civil que produz conhecimento a partir de um território muito específico: a favela, a periferia”, explica Raquel Willadino.

Contribuindo com o debate, Francisco Valdean, coordenador do Banco de Dados do Imagens do Povo, fala sobre a importância do Observatório, porém também destaca o trabalho que se tem pela frente. “Ainda existe uma forte tendência de olhar a favela como uma massa homogênea”. Nessa linha, Eduardo provoca. “Não é possível a gente se contentar em falar só para nós mesmos. Como a gente potencializa a nossa ação?”

Rodrigo Azevedo, coordenador da Agência Diálogos, aponta o campo digital como um caminho, seguido por Janaína ReFem, professora da Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC) e técnica de audiovisual da Agência Diálogos, que complementa reforçando a necessidade do Observatório participar da luta pela democratização da internet. “A potência não pode parar. O primeiro direito retirado é a informação”.

Após as considerações, a equipe se dividiu em três grupos para pensar proposições para as atividades do Observatório. Entre ideias, críticas e opiniões, os grupos encaminharam sugestões para potencializar a comunicação, os projetos e ações da Organização na Maré, na cidade, no país e no mundo.

Antes de acabar, Isabela Souza, coordenadora da Arena Carioca Dicró, lembrou do ambiente especial que cada um ajudou a construir. “Não podemos perder a mística e o afeto. É elementar para a reinvenção. A gente precisa descobrir como se resgatar”, acompanhada por Jorge “Vivemos em uma instituição de utopia, mas a gente precisa saber o lugar certo onde colocar o desejo’”, finalizou, citando Caetano Veloso.