Por: Alan Miranda e Addara Macedo

(alan@observatoriodefavelas.org.br e addara@observatoriodefavelas.org.br)

Foto: Davi Marcos / Observatório de Favelas

Há cerca de quatro anos, o financiamento coletivo ganhou espaço no Brasil. Conhecido também pelo nome de batismo, “crowdfunding”, a ação consiste na captação de recursos, através da rede, para iniciativas de interesse coletivo. Projetos semelhantes já existiam no Brasil há mais tempo, como o Teleton e o Criança Esperança, mas atualmente, com o advento das plataformas virtuais de financiamento coletivo no país, as campanhas assumem um caráter mais plural, participativo e inovador. Nesse novo modelo de “vaquinha online”, o financiamento de shows e discos foi uma das primeiras experiências que deram certo. A partir daí, surgiram novas iniciativas voltadas também para ações de cunho social, econômico e ambiental.

Um dos sites brasileiros mais atuantes no segmento é o Benfeitoria, que em três anos de plataforma já mobilizou recursos para cerca de 161 projetos de impacto coletivo. Grosso modo, é um empreendimento social que desenvolve conteúdos e ferramentas para estimular pessoas e instituições a fazerem parte de projetos transformadores, de forma simples e lúdica. Nesse breve período de existência, a Benfeitoria deu origem a experiências inovadoras, como o Recorrente, que no dia 30 de outubro completou um mês de existência.

Diferente do financiamento de uma ação específica, o Recorrente é uma plataforma de financiamento contínuo. Não é apenas uma doação única que o internauta faz, mas uma assinatura de apoio, que pode ser cancelada a qualquer momento. Ou seja, o objetivo passa de ‘realização de um projeto’ para ‘sustentabilidade de ideias’.

Qualquer pessoa pode participar e há duas maneiras: a primeira é enviando ideias ou propostas que gerem impacto positivo para um conjunto de pessoas. A segunda é acompanhando e contribuindo com algum projeto ou organização que já esteja em andamento. Esses projetos têm metas de arrecadação e é possível doar qualquer quantia. Ao participar de um financiamento, o assinante passa a atuar também no projeto, é ele que também faz acontecer! Cada projeto ao atingir sua meta traz recompensas ao assinante, uma comemoração mútua por mais um passo dado.

Alunos da ESPOCC posam para foto. O projeto acontece todo ano na sede do Observatório de favelas.
Alunos da ESPOCC posam para foto. O projeto acontece todo ano na sede do Observatório de Favelas.

Atualmente, o Recorrente colabora na captação de recursos para algumas organizações, dentre elas o Observatório de Favelas, uma organização da Sociedade Civil dedicada a criar conhecimentos, metodologias, proposições para construção de uma cidade de direitos. Ampliar a democracia e superar as desigualdades é o grande desafio colocado. Trata-se, portanto de, a partir das favelas e periferias, formular políticas públicas que disputem a hegemonia por uma cidade mais humana e solidária.

Téo Ferraz Benjamin, um dos responsáveis pela plataforma, acredita que o protagonismo dos colaboradores seja o ponto crucial para que uma campanha dê certo no Recorrente: “os assinantes não são apenas doadores, mas se tornam sujeitos ativos na construção de um projeto. O contato tem que ser direto, constante, transparente e sólido. Os realizadores destas campanhas precisam estar ouvindo atentamente o que os assinantes têm a dizer” – explicou.

Para Jorge Barbosa, um dos diretores do Observatório de Favelas, a parceria com o Recorrente abre espaço para uma nova maneira de fazer política. “Essa maneira de angariar arrecadação viabiliza mais autonomia, pois coloca a sociedade civil num campo de interlocução mais forte. Além de gerar uma relação de reciprocidade pelo envolvimento e pela confiança: não se trata só de sustentabilidade econômica, mas política” – observa Barbosa.

O financiamento contínuo é uma ferramenta que estimula o engajamento de pessoas em propostas com as quais elas se identificam de alguma maneira. É uma mudança de paradigma, que retira o cidadão comum do lugar de espectador e o projeta como ator na construção do meio em que vive.

O grande barato nisso tudo realmente é a participação direta de indivíduos em ações coletivas e de benefício mútuo. Através do financiamento coletivo é possível emplacar projetos dos mais variados, como possibilitar rodas de rimas regulares, que acontecem em bairros periféricos da cidade, em viadutos e praças, ou repaginar carroças e fornecer materiais de segurança no trabalho para catadores, como faz o Pimp my Carroça.

A primeira ação que o Observatório pretende desenvolver com o financiamento pelo Recorrente é a criação do Instituto João Aleixo, que será um espaço de pesquisa e formação voltado para produzir novos conhecimentos sobre a cidade, a partir das favelas e periferias. Trata-se do lançamento de um espaço contemporâneo de formulação de políticas públicas e construção de indicadores que contribuam para pensar caminhos que potencializem a superação das desigualdades, a ampliação da democracia e relações humanas cada vez mais solidárias. Para criar esse espaço, o Observatório precisa arrecadar 12 mil reais, dos quais já conseguiu 11%.

Mais do que viabilizar projetos sociais, o crowdfunding contínuo é um meio de garantir a sobrevivência de organizações, para que não dependam apenas do Estado ou do mercado e com isso fortalecer sua sustentabilidade política. A proposta só pode se manter através do envolvimento de pessoas comprometidas com o bem coletivo. Como outrora percebeu Paulo Freire, é preciso fomentar práticas que estimulem a autonomia das pessoas. Embora não seja testemunha ocular do modelo crowdfunding, o educador já vislumbrava a importância do engajamento para modificar a realidade que nos cerca: “se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo, (…) devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes”.