Jorge Barbosa* (jorge@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – Domingo de Carnaval. Vila do Sapê, loteamento popular localizado em Curicica, Jacarepaguá. Chegamos às 16 horas para cobrir os preparativos e a saída da Turma Animação. O calor na quadra onde a turma estava reunida era quase insuportável. Mesmo com uma sensação térmica de mais dos 30 graus que batiam no termômetro, rapazes e moças faziam os ajustes em adereços que seriam utilizados no desfile anunciado. Guardadas com todo sigilo, desde sua concepção à confecção final, as fantasias estavam cuidadosamente dispostas no chão da quadra, porém poucos tinham acesso àquele espaço. Nós, do Observatório de Favelas, com credenciais afetivas no peito, ganhamos passe livre para fotografar (Bira Carvalho e Francisco Valdean) e fazer entrevistas (Jorge Barbosa e Monique Silva). E lá estavam elas, as fantasias completas. Reluzentes em suas estampas coloridas. Delicadas em seus desenhos. Surpreendentes em sua composição de máscaras, sombrinhas, casacas, meias, macacões, estandartes e adereços. O grupo se aprontava alegre e compenetrado. Bate-bolas, bate-boletes e bate-bolinhas se preparavam para o salto do desfile. O tema deste ano? Não fique espantado caro leitor; o Lago dos Cisnes. (Isso mesmo, a inspiração era o ballet dramático do século XIX, que chegara aos idealizadores do tema através do filme O Cisne Negro). Os desenhos da casaca feitos com habilidade magistral envolviam cenas do ballet clássico, com destaque muito especial dedicado às bailarinas e suas gestualidades faciais. Os olhares insinuantes gravados naqueles rostos femininos transmitiam a força silenciosa das paixões. A mesma matéria prima que levara aquele grupo de pessoas a se dedicar à construção de fantasias com seus próprios recursos. Havia também os adereços com dois cisnes, um branco e outro preto, com luzes que giravam para dar um efeito especial. Os detalhes brilhavam a luz do sol para resplandecer na noite tão aguardada e que provavelmente se faria única em suas vidas.

O público também aguardava, pelo menos a mais de duas horas, a saída da Turma Animação, ao som de pagodes e funks, e nos sabores de cervejas e refrigerantes. Crianças, adultos e idosos se reuniam no largo em frente à quadra do loteamento popular. O espaço estava ficando pequeno e ao mesmo tempo se tornando comum com a presença alegre e imponente da pequena multidão.

Não mais que de repente começaram a surgir outras turmas de bexigas e sombrinhas. Explosão, Sensação, Havita, Magia, Comboio; nomes fortes para marcar a presença nas tradições do Carnaval da periferia da cidade. Eram turmas de outros “bairros” de Jacarepaguá, mas também da Ilha do Governador, Marechal Hermes, Madureira, Osvaldo Cruz. Eles se achegavam para fazer as saudações à Turma Animação. Dar um valor para saída de outro grupo era uma tradição preservada e renovada. E como contrapartida recebiam homenagens dos anfitriões, inclusive com a oferta de estandartes como reconhecimento da importância dos visitantes na folia carioca dos subúrbios. Demonstrava-se com clareza o quanto as turmas de bate-bola possuíam relações fraternas e de admiração mútua, desfazendo em pleno espaço público os estigmas de violência que sempre marcaram esses grupos criadores da cultura popular e a própria periferia da cidade. (Neste carnaval os mascarados bate-bolas estiveram presentes no noticiário de assaltos e brigas veiculadas pelas empresas hegemônicas de comunicação na cidade e no país, mas em nenhuma cobertura sobre suas celebrações alegres e pacíficas).

Curiosamente, as turmas visitantes traziam em suas casacas (onde são expostos os temas do ano), em suas máscaras e estandartes, distintos personagens da cultura de massa contemporânea: Harry Porter, Mário Boss, a Bela e a Fera, It. Apareciam também personagens históricos como Leonardo da Vinci e até mesmo da literatura como Alice no País das Maravilhas.

Havia ali algo maior que uma simples reprodução de personagens midiáticos em evidência ou do consumo acrítico de ícones da cultura ocidental. Era um ato de devorar narrativas estéticas de massa. A perfomance criativa das turmas de bate bolas expressava como imagens e linguagens hegemônicas que circulam na sociedade podem ser recebidas, elaboradas e traduzidas em processos diversamente criativos da cultura popular.

Devorar aqueles símbolos significava a sua apropriação inventiva por parte de sujeitos da periferia urbana. Transformá-los em algo de sua vizinhança, de seu tempo presente, de seu mundo da vida (…) significa inventar repertórios para a apresentação autônoma de si. Eram eles, pessoas jovens, negras em sua maioria, atuando como personas dos sonhos, de protestos e de desejos que, no fundo das aparências, verdadeiramente animavam o seu desfile em fantasias.

A prece de proteção iniciava o ritual. Pedir proteção para sair às ruas não era apenas tradição, mas uma mística inerente às turmas. A saída da quadra se fez deslumbrante. Os componentes saíam dando saltos de balé ao som de Tchaikovsky! A emoção vibrava como uma corrente de energia que contagiava a todos. Fantasiados ou não, estávamos juntos como sujeitos celebrantes. Não se ouvia mais a música. Gritos, aplausos e flashes das câmeras de celulares abafavam o funk escolhido para dar continuidade à exibição da turma. Algo a mais também invadia o público brincante: o perfume de sabor tutti-frutti que exalava da turma em desfile. Porém, a Animação ainda não estava completa. Faltavam os fogos de artificio. E logo eles explodiram no céu, fazendo o som voltar aos nossos sentidos. A saída estava completa. Os bailados fluíam pelas ruas. A Turma Animação ganhava aplausos de um público vibrante e as reverências honrosas das turmas visitantes. A celebração em cena demonstrava que a periferia é uma referência da cultura popular do carnaval e se faz, com sua animação de convivências plurais, uma potência para mudança radicalmente democrática de nossa sociedade ainda tão profundamente desigual e incapaz de reconhecer as diferenças como fundamento da liberdade.

*Jorge Barbosa é diretor e fundador do Observatório de Favelas.