Por Raquel Willadino (raquel@observatoriodefavelas.org.br)*

“ As rosas da resistência nascem do asfalto.
A gente recebe rosas, mas a gente também vai estar com o punho cerrado
falando de nosso lugar de vida e de resistência contra os mandos e
desmandos que afetam as nossas vidas” (Marielle Franco, 8 de
março de 2018, pronunciamento no plenário da Câmara dos
Vereadores do Rio de Janeiro)

Rio de Janeiro Atravessamos o mês de março com a força das mulheres e, muito especialmente, das mulheres negras. No dia 8 de março, tomamos as ruas para afirmar a nossa luta pela vida das mulheres, por direitos, por democracia, pela soberania sobre nossos corpos e desejos. Num cenário de graves retrocessos, em um ano que iniciou com o acirramento dos feminicídios no Brasil, celebramos o dia internacional das mulheres lembrando que a nossa luta é todo dia, que não aceitaremos Nem Uma a Menos e Nem um Direito a Menos e que os movimentos de mulheres tem sido centrais na resistência contra agendas regressivas e autoritárias.

No dia 14 de março de 2019, amanhecemos com um arco íris no céu do Rio de Janeiro quando completamos um ano da brutal execução política de Marielle Franco e Anderson Gomes. Um ano do momento em que nos tiraram o chão naquela noite de ventos e tempestade. Um ano de dor e muita saudade. Mas também um ano de muita luta. Desde então, não saímos das ruas e seguimos afirmando que este bárbaro crime político representa um atentado à Democracia. E que não descansaremos até que haja justiça.

A trajetória de Marielle foi marcada por muita potência. Mulher negra, favelada, cria da Maré, mãe, bissexual, ativista e defensora de Direitos Humanos. Sua luz e sua força já irradiavam pela cidade muito antes de chegar ao parlamento. Dedicou sua vida a lutar contra as desigualdades sociais e, em especial, pelos direitos das mulheres, da juventude negra, dos moradores de favelas e das pessoas LGBTI. Na sua caminhada marcada por construções coletivas, assertividade e um sorriso largo, agregou forças que possibilitaram que, em 2016, fosse eleita vereadora com mais de 46 mil votos. Construiu uma mandata negra, feminista, antirracista, LGBT e popular que ensinava no cotidiano o que significa fazer política com afeto e efetivamente conectada com as ruas e com as lutas concretas que representava. Sua força e capacidade de mover as estruturas foi tamanha que tentaram silenciá-la.

Mas Marielle era gigante e, ao invés de silenciamento, o efeito foi a amplificação de sua voz. O alcance nacional e internacional dessa barbárie, fruto do significado político de sua execução, potencializou a política que Marielle construía e as lutas que travava e que trazia inscritas em seu corpo. Colocou em evidência a centralidade das mulheres negras e periféricas e a necessidade de que estejam em todos os espaços de poder. Mari se tornou símbolo de luta e seu legado uma grande inspiração para o mundo.

Assim como Marielle revolucionou em vida, sua morte também provocou rupturas. No país em que mais de 60.000 homicídios por ano não provocam indignação suficiente para reverter este quadro. No país que naturaliza o genocídio da população negra. No país em que os feminicídios escalam e as mulheres negras são suas principais vítimas (Atlas da Violência, 2018). No país que tem o maior número de homicídios de transexuais, segundo dados da organização Trangender Europe. No país que está entre os que mais matam defensoras e defensores de direitos humanos no mundo (Anistia Internacional, 2017). No país em que a impunidade e a falta de esclarecimento e responsabilização predominam nos casos de crimes contra a vida. A execução de Marielle Franco, em pleno exercício de seu mandato como vereadora, rompeu com a naturalização da violência letal, que, no Brasil, está intrinsecamente associada a desigualdades raciais, de gênero, etárias e territoriais. A mobilização social permanece intensa com múltiplas ações de memória e reivindicação de justiça.

Apesar do logo tempo de espera, as recentes prisões de dois suspeitos de serem os executores de Marielle Franco e Anderson Gomes são um passo importante na investigação. Mas ainda faltam respostas para as perguntas fundamentais: Quem mandou matar Marielle? Quais foram as motivações? Quais são os interesses políticos vinculados à essa execução?

Seguiremos mobilizadas cobrando do Estado brasileiro todas as respostas e a responsabilização de todos os envolvidos neste crime político. Não descansaremos enquanto não houver respostas sobre os mandantes e as motivações deste crime brutal. Seguiremos na luta por memória, verdade e justiça. Por Marielle, por Anderson e por todas as vidas ceifadas pela violência. Nos queremos vivas e livres do racismo, do machismo, da misoginia, da lgbtfobia e da violência estatal. Não aceitaremos Nem Uma a Menos.

*Raquel Willadino é diretora do eixo de Direito à Vida e Segurança Pública do Observatório de Favelas