Por Eduardo Alves*(edu@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – A corrupção é um dos temas mais presentes nos dias de hoje. Seu espectro ronda o país. Faz doer ouvidos, olhos e sentidos. Quando se pergunta às pessoas sobre o principal problema do Brasil, a resposta parece estar tatuada no cérebro: a corrupção. E não faz diferença se a indagação for para quem está no Leblon, na Barra, na Vila da Penha ou em Santa Cruz. Apresenta-se como uma universalização abstrata e com as saídas que só reproduzem sua manutenção.

Em um país amplamente desigual que, para além das desigualdades estruturais, pigmenta todas as dimensões e formas de desigualdades superestruturais, ter a corrupção como principal problema torna-se uma ilusão. Para os setores que se alimentam das múltiplas corrupções é uma vibração ver as desigualdades escorregarem para o núcleo inatingível e invisível da vida. É para espalhar: enquanto a corrupção for eleita como principal obstáculo à vida, aos direitos e à dignidade humana, as desigualdades se ampliarão e serão alimento de ampliação das formas de corrupção.

A corrupção é constitutiva da estruturação do sistema que tomou o mundo e, por isso, ela é estrutural. Pavimenta o ethos dos grupos que colocam o lucro acima da vida e que se apropriam poderosa, privada e destrutivamente da Natureza. Nesta lógica, produzem-se as guerras e maior exploração do trabalho. Neste sentido, a corrupção é o cimento das relações econômicas e se realiza no Estado como sua expressão jurídico-política. Por isso, ela não pode ser vista isolada da totalidade social e complexa que faz dela necessária para as negociações econômicas e para as relações de poder do modelo que seguimos de desenvolvimento econômico no Brasil e no mundo. Tampouco podemos considerar a corrupção como anomalia: ela é alimento do sistema mercantil para a realização do lucro e, desta forma, impossível de ser combatida e superada sem que se leve em consideração a superação das desigualdades.

Numa conjuntura de instabilidade política, os setores dominantes e seus representantes de Estado precisam da eficácia da ideologia para a reprodução das desigualdades e para o seu aprofundamento. Com isso, o combate à corrupção como elemento moral se eleva como possibilidade ideológica na disputa de hegemonia. Assim, para que a corrupção estrutural se mantenha firme e o sistema garanta o lucro que atropela a vida, ampliando as desigualdades em suas variadas formas, os donos do poder precisam pigmentar a corrupção na cultura e nutri-la de moralidades. Para maior eficácia da reprodução e desenvolvimento da continuidade do lucro acima da vida que estrutura a vida econômica em todo o mundo, a mostrualização das pessoas torna-se ingrediente potente para a edificação desta moralidade que tem como centro ideológico o combate à corrupção. Significa dizer que a ideologia do combate à corrupção tem, como seu principal efeito, o seu próprio contrário: a sua manutenção e o aprofundamento das desigualdades.

Assim, a monstrualização das pessoas como efeito da moralidade torna-se terra fértil para a ideologia do combate à corrupção e se realiza em todas as esferas da vida. Há a corrupção que ocorre com os de lá, a corrupção que ocorre com os de cá, e quem continua a lucrar com isso segue a banhar-se no rio invisível de seus interesses.

Desta corrupção estruturante da vida econômica e política, seguem todas as corrupções institucionais e culturais que nutrem o patrimonialismo e impossibilitam a criação do ambiente público. Apresenta-se, assim, como obstáculo para a República e garante, com a inverdade das ações no varejo, a sua manutenção. Assim, a ideologia do combate à corrupção é, ela mesma, a manutenção da corrupção estrutural e de sua organização institucional.

Além de mascarar a realidade que ela mesma ajuda a manter, a moralidade que subjaz à esta ideologia traz dupla consequência: a fetichização da justiça e o ocultamento de seu caráter lucrativo. Afinal, prender é um bom negócio; criar e incentivar ilusões como “guerra às drogas” é um bom negócio; matar negras, jovens, moradoras das periferias, é um bom negócio. Um bom negócio para os setores sociais que apostam no lucro acima da vida. Um bom negócio para quem pode tomar o Estado e todas as salas, cozinhas e quartos da superestrutura para manter tal “ordem” mascarada com a palavra cruel do “progresso”. Com isso há investimento dos Estados na indústria das prisões, das armas, nos grandes negócios que escravizam nos formatos mais vis a tão falada “força de trabalho”, fenômenos que culminam com a escravização do corpo. E do corpo de muitas pessoas, da maioria das pessoas, no Brasil e no mundo.

Culturalmente torna-se necessário que este portal de indulgências e inconsequência seja mantido e nutrido. Desde a pequena e mais simples corrupção, praticada como rota de fuga de quem sofre as desigualdades mais brutais, até suas formas mais complexas, são, elas mesmas, uma grande nuvem cultural e institucionalizada da sobrevivência humana. E esta imoralidade estrutural, institucional e cultural tem, em seu próprio avesso e ao mesmo tempo, a sua garantia e o seu combate. Pois é preciso garantir, ao mesmo tempo, as duas faces desta moeda: a moralidade dos trabalhadores – em especial no pagamento honesto de suas contas! – e a sua própria vulnerabilidade para efeito de manutenção tanto da nuvem da corrupção quanto da ideologia de seu combate.

A ideologia do combate à corrupção esconde a verdadeira natureza das desigualdades: a privatização do Comum, o esgotamento da Natureza em todos os seus aspectos, os novos fenômenos e aparências da escravidão do corpo e a interdição da liberdade, navegando no fetichismo do indivíduo e em sua articulação com a estética da guerra. Desta forma, o problema do Brasil não é a corrupção. Prender as pessoas e individualizar a existência da corrupção como prática humana desviante é não reconhecer o seu caráter estruturante, amargando o crescimento das desigualdades. E continuarão sendo as pessoas negras, mais empobrecidas economicamente e que ocupam os setores mais explorados na divisão social do trabalho – moradoras, mulheres e juventudes de periferias – que continuarão a viver os seus principais impactos.

A destruição da vida, humana e não-humana, apresenta-se como força de destruição da Natureza e como inversão da ôntica humana. Este é o verdadeiro obstáculo à plena realização humana. Caberá à humanidade a potência de transformação da Natureza e de criação de ambientes e territórios que tenham terra firme para relações de convivência que não gerem destruição. A relação potente e criativa das pessoas entre si e com a Natureza para a satisfação de suas necessidades e para a realização do bem comum deve ser o elo desta unidade e de um caminho a seguir.

E, para isso, é fundamental superar o discurso moral predominante e caminhar no sentido de uma ação coletiva em favor da potência humana criativa e da vida com dignidade. Com mobilização, formação e atuação coletivas, fortalecendo as diferenças entre os iguais.

Com organização e solidariedade, mobilizadas em revolução, um novo amanhã será criado!

*Eduardo Alves é Diretor do Observatório de Favelas