Por Eduardo Alves* (edu@observatoriodefavelas.org.br)

Foi na Bahia, ainda capitania, no século XVIII, no mês de agosto, que uma unificação de negros, em sua grande parte alfaiates, fizeram tremer os búzios. Seja qual for o nome e de onde venham os termos, se da academia ou dos ditos populares – conjuração baiana, inconfidência baiana, revolta dos búzios, revolta dos alfaiates ou revolta das argolinhas – trata-se de uma insurgência que deixou tatuagens potentes. Influenciou os populares em sua época, retornou com força na independência da Bahia no século XIX e tem energias até hoje com a mobilização pela superação do poder racista estrutural (ou institucional) que carimba a formação social brasileira.

Sujeitos em movimento com projeto em disputa na cabeça, no coração e articulados em palavras, mãos e pés, apresentaram com a potência da periferia suas reivindicações: abolição da Escravatura; proclamação da República; diminuição dos Impostos; abertura dos Portos; fim do Preconceito; aumento Salarial. Pontos centrais que miravam a quebra do poder da coroa portuguesa, a conquista por direitos e o alcance da dignidade humana. Em tempos atuais, basta, talvez, substituir a “coroa portuguesa” pela expressão “capital exercido na primeira vista pelo Estado” e seguir para unificar os corpos populares por uma subjetividade coletiva que faça do trabalho exercício de manifestação da criatividade plena e não objeto de exploração dos setores que, para viver, e em penosos custos, tenha que vender sua força humana.

Está, nos dias atuais, colocado o desafio de divulgar os espirais que movimentam em ações pela ótima influência estética e plástica das conchas do mar presas nos corpos. Ou das argolinhas, que podem marcar orelhas e dedos com representações simbólicas de compromisso pela vida e pela liberdade da multiplicação do amor, superando todo o poder que, em última instância, faz da posse do outro a marca anacrônica do período atual tomado pela intolerância. Seguir potente, resiliente, com convicção para construir, da existência da liberdade à dignidade, é um desafio estratégico que traz a energia dos búzios e a unidade dos anéis. Não é por menos que tal artigo se declara preferir as nomenclaturas de REVOLTA DOS BÚZIOS OU REVOLTA DAS ARGOLINHAS, pois trazem força poética e inspiradora para que o ocorrido no século XVIII banhe com inspiração o século XXI. Ainda que mais conhecida como Conjuração Baiana, segue-se a convicção que há elementos para, além de conjurar, apresentar um novo mundo com alterações profundas nas marcas objetivas e subjetivas impostas pelo capitalismo.

No passado, direto da Bahia, os nomes mais conhecidos dessa potente ação, que pigmenta e atravessa a história, foram: Lucas Dantas, Luis Gonzaga, João de Deus e Manuel Faustino. Esses quatro líderes foram incluídos, no ano de 2011, no livro Heróis da Pátria, que fica na chamada praça dos Três Poderes. O poder da época assassinou os líderes e todos que foram reconhecidos como parte dessa ação libertadora. Evidente, como demonstração máxima do terror e para fazer valer a forma de manutenção do poder, o processo foi para que mulheres e homens tomassem conhecimento das torturas e execuções, em uma época sem upload digital, expondo os corpos aos olhos de todas e todos.

Mas aqui paira o desafio da atualidade. Inflar, fortalecer, unificar a potência da periferia, contribuindo com repertórios e ações que sirvam como alimentos e insumos para os sujeitos revolucionários no contemporâneo é um desafio fundamental. A centralidade das periferias já está evidente. Lançando mão da história pode-se identificar que tal centralidade vem se fortalecendo e ganhando pungência no tempo. Cada ação decisiva do passado, que deixa suas marcas e tatua alma, cérebro, espíritos, desejos e corpos, precisa ser sempre resgatada, para que cadeados, como o racismo, que trancam a liberdade, sejam absolutamente destroçados. A periferia não está nas franjas, não está nos cantos das cidades, muito menos da vida humana. As periferias se constroem como centralidade na superação do mundo atual e a energia no contemporâneo para a grande revolução.

Então, que nesse mês de agosto, faça-se ecoar um grande grito. Um som audível para todos os sentidos, impregnado de teoria, amor e compromisso pelas múltiplas dignidades humana, que ultrapasse todas as paredes, do concreto às ideologias dominantes impostas. Viva a revolta dos Búzios: viva a revolução no contemporâneo!

*Eduardo Alves é diretor do Observatório de Favelas