Por Ellen Marques (ellen@observatoriodefavelas.org.br) e Gabriela Anastácia (gabriela@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – Neste mês nos debruçamos no tema “Outros territórios e sujeitos da arte e da memória da cidade” e convidamos a escritora de livros infanto-juvenis, Janine Rodrigues, para falar sobre os sujeitos, territórios e construção de conhecimentos a partir das suas vivências e experiências com a publicação de mais de 50 projetos voltados para leitura e diversidade. Janine é escritora e educadora carioca, criou uma empresa de arte-educação que usa a literatura infanto-juvenil como base para iniciativas voltadas para uma educação antirracista, antibullying e sem preconceitos, a Piraporando.

Seu trabalho já alcançou mais de 16 estados do Brasil, além de países como a Colômbia, a Argentina e o Chile. Recebeu o Prêmio Destaque Artístico Cultural da Sociedade Europeia de Belas Artes, na Áustria, e o Prêmio Latino-Americano de Excelência pela Academia de Letras de Rosário, na Argentina. Recebeu o prêmio Heloneida Studart 2018. Curadora da FLUP Parque 2018. Seu livro ” As Duas Bonecas Azuis” virou peça de teatro, em parceria com a Companhia Miolo de Teatro Intuitivo. A peça, premiada, compõe um importante projeto de teatro literário. Janine roteirizou e dirigiu o curta de animação ” O Filho do Vento”, arte do artista Boni, selecionado para diversos festivais de cinema. Seu livro e projeto ” Nuang – caminhos da liberdade” receberam chancela cultural da Fundação Cultural Palmares. Janine Rodrigues também assina o roteiro da peça ‘A Bela Adormecida’ que faz uma imersão no ballet homônimo de Tchaikovsky.


1- Qual a importância no sentido da construção da memória o registro das manifestações culturais?

Total relevância. Para todas as gerações mas sem dúvida, para os mais novos. Por uma série de questões advindas de uma estrutura racista, por exemplo, é comum práticas que tentam invisibilizar nossa cultura, nosso fazer artístico. Esse registro da memória, do que foi e do que está acontecendo mantém a chama acesa. Mantém em nós a certeza de quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir.

2- E como você acha que as crescentes produções culturais disseminadas nos meios digitais impactam o consumo da arte em relação ao contato presencial com a arte?

A tecnologia, ao meu ver, tem como um dos principais benefícios a acessibilidade. Muita coisa passou a se real porque a tecnologia propôs meios mais acessíveis e de maior alcance. Com isso veio também a ampliação de perspectivas. Muita coisa que não era nem sonhada passa a fazer parte do imaginário e muitas vezes do concreto. Dando um exemplo prático e recente, estava mês passado numa atividade literária e uma menina de uns 8 anos me disse que ela queria muito um dia conhecer Moçambique. Ela adora poemas e leu um poema da Paulina Chiziane. Na sua escola não tinha biblioteca mas ela conheceu o trabalho da Paulina na internet e ficou fascinada. Ela também me relatou que adora ver vídeos de slam. A mãe dela comentou que depois que ela começou a ver estes vídeos que ela passou a ler ainda mais e se interessar cada vez mais por poesia.

3 – Quais os processos envolvem o incentivo, a produção e o reconhecimento cultural para um território ser considerado fértil no aspecto cultural?

Acho que a escuta é algo importante. Respeitar o como fazer. Muitas vezes quando um incentivo chega a um determinado território ele chega com formatos que não cabem ali. Então essa escuta, esse olhar ainda é muito ” vou te mostrar como se faz” e não ” vou potencializar o que você está fazendo”. Além disso, ao meu ver, é importante incentivar com estrutura, com uma oportunidade que não seja aquela que quer um artista de estimação. Que seja com base no respeito e no afeto.

4 – Na sua opinião, quais manifestações culturais apontam a identidade da região metropolitana?

Não vou citar nomes por que não teria como citar todos e seria injusta de esquecer alguma manifestação. Mas destaco que aquelas que acontecem nas ruas, nos espaços públicos, com certeza, são de uma riqueza impar. Por que a rua é essencialmente o povo, o humano, a vida. A arte que se manifesta nas ruas são como ar nos pulmões. Pulsam nossa esperança. Também destaco a necessidade de fazermos, na verdade, reconhecermos as escolas publicas como equipamento cultural também. A escola clama por arte. Arte é a unica coisa que nos liberta. Não a toa é comum vermos nos recreios crianças e jovens ouvindo música, cantando, recitando, desenhando em algo. É um clamor, talvez ainda tímido, por arte.


5 – A economia criativa pode ser considerada uma alternativa à falta de incentivos governamentais em relação às produções culturais? Como você encara esse processo e quais são as estratégias fundamentais para promover a cultura e os agentes culturais nesse cenário?

Acho perigosa essa ” alternativa” porque as vezes ela vem como única opção. Acho que o governo deve fazer seu papel. Arte e cultura é um direito. A economia criativa é, com certeza, enriquecedora dos processos do fazer artístico. Mas repito que é preciso preparo, conhecimento e paciência. Vi muito artista investir quase todas as suas economias para abrir um CNPJ e perder tudo.

6 – Quais são os movimentos efetivos que contribuem com a produção e articulação dos sujeitos da arte para que essas figuras não deixem de produzir em meio às necessidades pela sobrevivência?

Os movimentos são muitos. Trabalhar em coletivos, estar atento as oportunidades e sair da ”zona de conforto”. Ver o que esta acontecendo em outras cidades, propor projetos em outros estados etc. Mas nada disso isenta a necessidade do governo cumprir seu papel. Arte e cultura é um direito. Existem muitos caminhos. Nem todos trarão resultado esperado mas existem caminhos. Sinceramente não acho que todo mundo que faz cultura/arte tem que obrigatoriamente ter empresa ou algo assim. Acho que todos podem, se isso for seu objetivo. Acho que existe aí uma questão de perfil. Tem artista que é muito bom no que faz e não tem uma veia de escrever, produzir e administrar um projeto. Acho ruim e triste ele ter que fazer isso obrigatoriamente por que se não fica sem trabalhar. Acho que a economia criativa deve ser uma opção. É sim uma ótima alternativa mas não acho que deveria ser a única. Quanto ao governo ele deve fazer o papel dele em todos os sentidos. Arte, cultura é direito. Há previsão de verba pra isso. Por que um ator que está dedicado a sua produção artística tem que obrigatoriamente entender de planilhas, custos administrativos, logística? Veja, não estou dizendo que ele deve ser alheio a tudo isso mas sim que ele pode estar num grupo, equipe, empresa, coletivo etc com pessoas que vão desempenhar esse papel por que dentre as tantas coisas que este artista saber fazer, administrar não é uma delas. E tudo bem. Por que ninguém sabe fazer tudo. Eu escrevo literatura infantojuvenil, tenho uma empresa e a administro faz 4 anos. Hoje minha equipe tem 5 pessoas. Fazer a gestão da minha empresa em nada me prejudica para escrever e criar. Mas não acho que isso deva ser regra.

7- Para onde os sujeitos da arte têm projetado a cultura em relação aos territórios e como isso contribui para a construção da memória da cidade?

Acho que para o alcance maior do público, para as ruas. Cada vez mais acho que os artistas têm ocupado as ruas. Ao fazer isso são muitos os ganhos pois a troca com o público é visceral. E o público da rua também demanda para esse ”fazer artístico”. É ao meu ver uma das formas mais genuínas de troca e entrega entre artista e público. E essa memória fica também mais genuína pois é firmada na parte mais pulsante de qualquer cidade. As ruas. A manifestação das artes em teatros, salões e diversos outros espaços não só são maravilhosos como necessários e uma coisa não exclui a outra. Destaco as artes que nascem nas ruas pois ao meu ver dialogam muito com as pessoas e acessam muitas vezes um público mais diverso.