Por Eduardo Alves (edu@observatoriodefavelas.org.br)*

Rio de Janeiro – Fama. A “VOZ PÚBLICA”, revelação para os Deuses, para quaisquer pontos de notícias ou divulgações de mensagens, uma divindade feminina poderosa da Mitologia Grega. Estamos no século XXI e, deslizando nos acordes de palavras escritas por Marx, é possível alterar a pergunta compondo novos arranjos; eis então: O que seria da Fama ao lado da Internet e suas redes sociais? Claro, em seu tempo, fisicamente datado, a pergunta colocada na célebre INTRODUÇÃO de 1857 de PARA A CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA foi assim desenhada: “O que seria da Fama ao lado de Printing House Square? (Praça de Londres, onde se encontra localizada a redação do Times)

Eis então o que se está disputando: A VOZ PÚBLICA. Nas narrativas, notícias, imagens e sons, disputa-se para além daquilo que individualmente apareça como ser de fama. A construção coletiva da disputa do que se enxerga no mundo, de como se enxerga o que há divulgado no mundo e o que se divulga para as pessoas neste combo de disputas assume a centralidade. A Fama aqui colocada não é, portanto, a de indivíduos, uma artista em particular, uma escritora brilhante, uma atleta que se destaque ou quaisquer atores de novelas, filmes e séries. Eis, nessa terra colocada, a disputa mais profunda, que pode abrir frestas da potência humana: disputa-se o que há de mais profundo, submerso e fundamental para as pessoas, ou seja, a humanidade em processo de realização.

Aquilo que assume hoje o lugar de FAMA é produto do desenvolvimento do capitalismo em nossa época, com sua grande indústria das tecnologias da internet, e do poder dominante do Estado, com sua grandiosa força de interdição e controle. Assim, o Estado se emana, ainda com mais força, com o privado, potencializa seu lugar de ampliação do lucro e proporciona o ambiente para que o trabalho da limitação humana se sobreponha. Essa VOZ nada de PÚBLICA tem. Muito pelo contrário, corresponde às pessoas, aos sujeitos, às prerrogativas e desejos em que o lucro se coloca, progressivamente, acima da vida.

Tomemos mais palavras emprestadas de Marx: “Em relação à arte, sabe-se que certas épocas do florescimento artístico não estão de modo algum em conformidade com o desenvolvimento geral da sociedade, nem, por conseguinte, com a da base material que é, de certo modo, a ossatura da sua organização” (Introdução de Para a Crítica da Economia Política, edição Os Economistas da Abril Cultural de 1982). E, seguindo na mesma estrada aberta, podemos compreender que, para além das artes, onde nascem frestas fundamentais que furam as limitações da potência humana impostas pelo trabalho da exploração da força de trabalho, podemos conquistar frestas similares em uma ação coletiva de comunicação na internet. Pontas de ações para esse movimento aparecem, precisam ser cerzidas coletivamente e se estruturar como ambientes de formação de sujeitos, mas já pulsam em brechas lascadas pela intuição.

No processo pedagógico da construção do sujeito das periferias, da multidão de pessoas que ocupam tal espaço, que já se coloca como central na cidade, principalmente para conquistar uma cidade de direitos, a disputa pela VOZ PÚBLICA é um movimento fundamental. É possível, sim, e em certa medida já se está realizando a construção de frestas que furam o coração da ordem da exploração e do controle. Tais possibilidades chegam nas ações coletivas que são realizadas, como foi o Encontro Nacional de Comunicação das Periferias, ocorrido na Favela da Maré em outubro de 2017. Variadas marcas de ações humanas, que fazem pulsar nos grafites, nas alimentações, na produção literária, de múltiplos personagens do potente sujeito das periferias em construção, são também exemplos desse processo.

O upload, que alcança um raio físico infinitamente superior ao prelo criado por Gutenberg no século XV e a linguagem multimídia, que ultrapassa distâncias de sons e imagens, superando em alcance a potência do som da voz, são insumos fundamentais para uma revolução no contemporâneo. É possível, sim, conquistar a VOZ PÚBLICA. É possível construir uma poderosa unidade por uma fala que potencialize a humanidade em todos os aspectos, em todas as dimensões. São as pessoas, que formam o coletivo do sujeito revolucionário no contemporâneo, sujeitos da periferia que aparecem nas múltiplas formas geográficas, físicas e nos contornos mais ricos de símbolos e significados, que podem construir, ressignificar e conquistar a voz pública, embaladas pela intuição da Fama, no contemporâneo.

Unificar as várias formas de artes – das irracionais às racionais -, lançar mão do acúmulo filosófico, conhecer a ciência, lançar mão da teoria e do que foi historicamente acumulado e potencializar a cultura do letramento por meio das várias formas e símbolos de linguagem é mais que fundamental. Assim, para além de demonstrar que o poder privado que controla a internet, amparado pelo Estado e toda a sua sobre ordem, não é a voz pública; para além de apresentar uma FAMA coletiva, que potencializa os sujeitos da periferia, para além da fama individualizada; para além de construir uma inteligência coletiva que ultrapasse o peso do meritocracismo e da escola montada para formar qualificadas forças de trabalho; mira-se em ampliar a potência humana, para que no processo de ampliação, assuma o lugar mais atual do Mito Grego e a favor dos direitos e do crescimento humano das pessoas.

Eis um ótimo desafio, ainda que nada confortável, pois coloca-se em uma estrada de incontáveis transformações. Um desafio que, só ao pensar coletivamente, ao projetar o melhor alicerce para sustentar a casa antes de construída; ao imaginar a combinação de cores mais abrangentes e múltiplas de luminosidades, antes da pintura; ao cerzir, em movimentos de artesanatos, com decorações das mais diferentes formas e símbolos em escalas fecundas de convivência plena; ao materializar a mais profunda, rápida, fecunda e abrangente mobilidade humana, por vezes com um simples F5; só pela complexidade rica, múltipla e coletiva, nesse processo que já transforma as pessoas, criam-se os sujeitos, pavimentam-se os ambientes para mudanças e abrem-se frestas impensáveis. Que venham criando uma república na qual as políticas públicas se coloquem com pujança para superar o poder do Estado. Que venham com força, tais frestas, para se conquistar a mais fecunda liberdade e o mais elevado marco da inteligência coletiva, com uma poderosa VOZ PÚBLICA: que venha com a POTÊNCIA DAS PERIFERIAS!

*Eduardo Alves – membro da direção do Observatório de Favelas